
No início de 2019 realizamos um projeto de pesquisa super interessante: passamos duas semanas no interior do Espírito Santo (na belíssima região do Forno Grande) para estudar o potencial turístico do local. A proposta era compreender qual seria a melhor estratégia de fomento à atividade turística local, oferecendo à comunidade um plano de ação como contrapartida pela instalação de uma linha de transmissão de energia na região.
Descobrimos uma zona de natureza ainda intocada pelo turismo predatório, e que justamente por isso tinha um potencial imenso de se estabelecer como um destino ligado ao turismo ecológico, rural e de aventura. Forno Grande me veio à cabeça várias vezes nas últimas semanas, quando lendo sobre tendências de consumo num mundo pós-Covid a área do turismo era - obviamente - recorrentemente mencionada.
Não poderia ser diferente: num mundo em quarentena, o setor do turismo é um dos mais (senão o mais) afetados pela pandemia. Segundo projeções da UNWTO, agência da Nações Unidas focada no turismo mundial, o impacto pode variar entre 60% e 80% de receita a menos em 2020. Para termos uma mínima dimensão do que isso pode significar, basta conjugarmos essa projeção com o fato de que 1 a cada 10 trabalhadores no mundo atua na cadeia do turismo. Nesse cenário, entre 100 e 120 milhões de empregos estariam em risco, segundo a UNWTO.
Nesse cenário, evidentemente a compreensão do comportamento do consumidor será crucial na retomada do setor turístico. Quando sairmos da quarentena (ou do lockdown que se aproxima em algumas regiões do Brasil), estaremos prontamente dispostos a pegar aviões e cruzar o globo? Ou passaremos por um período ainda transitório, de lock-ins voluntários?
Certamente ainda é cedo para traçar cenários mais distantes, mas alguns experts já apontam uma tendência altamente provável: o boom do turismo local, especialmente para pequenas comunidades do interior, como Forno Grande, no ES. Os motivos para essa tendência seriam alguns:
escolha por lugares de pouca concentração humana, como pequenas cidades, sítios, fazendas. “Travel will be less urban” ("o turismo será menos urbano", em tradução livre), afirma Brian Chesky, CEO do Airbnb.
valorização de destinos ligados à natureza, ao ar livre e ao não tecnológico. Afinal, após tanto tempo de enclausuramento em apartamentos e diante de telas, o ar puro e o offline serão pequenos luxos.
possibilidade de viajar de carro, um meio de transporte individualizado (e não coletivo como ônibus ou aviões) e, portanto, mais protegido. No caso do Brasil, a forte alta do dólar desfavorece ainda mais as viagens aéreas, cujos preços são altamente influenciados pela moeda norte-americana.
“Viagens de carro são uma imensa oportunidade para acelerar a economia. A sensação de liberdade associada à ideia de controle será ideal para quem busca segurança”, atesta ao NYT Caroline Beteta, CEO do Visit California, agência de turismo do estado americano.
Se concretizada, essa tendência traz uma ótima oportunidade para o mercado de turismo nacional estabelecer de vez o agriturismo, conceito importado da Itália que une o cultivo em pequena escala (de preferência, orgânico) com o turismo receptivo. Proprietários de sítios, fazendas, roças e chácaras que tenham algum tipo de produção podem implementar uma pequena estrutura receptiva para hospedar poucos hóspedes que valorizem o contato com a natureza e a experiência de cultivo, como participar de uma colheita de azeitonas ou aprender sobre o processo de produção de um queijo, por exemplo.
Esses pequenos empreendimentos locais/regionais podem se beneficiar da tendência que estamos vendo de apoio a negócios locais, como bares, restaurantes e pequenos negócios. Se bem construídas, campanhas podem reforçar o estímulo ao regionalismo por meio da exaltação de talentos e orgulhos locais, como a culinária, a música ou mesmo o resgate de tradições típicas.
Isso me lembra outro projeto, em que viajamos para 8 cidades (5 delas capitais) para compreender como uma empresa de atuação nacional poderia construir um plano de comunicação unificado mas que, ao mesmo tempo, dialogasse com os diversos orgulhos locais. Foi incrível perceber como nossa cultura regional, rica e diversificada, tem um potencial enorme de ser positivamente explorada. A ideia do turismo massificado, em que se vive uma mesma experiência independente de onde se vá, possivelmente será questionada após a pandemia.
Agora é um timming perfeito para destinos e mercado turísticos se programarem e pensarem na oferta de experiências autênticas, baseadas em valores e práticas locais! Da degustação do café de qualidade produzido no vale do Caxixe, no Espírito Santo, ao contato com expressões de danças regionais e suas indumentárias típicas ao longo do Rio Vaza Barris, em Sergipe, passando pela proximidade com a rica fauna urbana em cidades do Centro Oeste… O que importa é sentir que aquela experiência só pode ser vivida ali. E neste quesito, temos um país riquíssimo de culturas, costumes e sabores a serem experienciados!
ps: A hastag #traveltomorrow, mencionada no título, faz parte de uma campanha da UNWTO de apoio ao setor do turismo neste momento. A ideia é de criar consciência sobre a importância de #ficaremcasa agora, para podermos viajar amanhã. Nesse site, eles falam um pouco mais sobre como é possível ajudar o setor do turismo nesse momento tão delicado.
Comments